Onde: Cine Olido, mostra de cinema transgressor japonês.
Com: namorado e vagabundos e fancy-pants.
Como: sentada com a perna cruzada, alternando perna com cuidado pra não chutar a fileira da frente.
Vestindo: calças pretas, camiseta branca - eu era a única pessoa com uma camiseta branca simples, a maioria estava de preto e usavam camisetas do Taxi Driver ou coisa assim.
Comendo: nada, fui de estômago vazio mas, estranhamente, fiquei morrendo de fome depois do filme.
O primeiro filme que eu vi do Takashi Miike foi Chakushin Ari (One Missed Call), filme que me parecia um resumo muito bem feito de todos os filmes de terror japonês que eu tinha visto até então; Ringu, Dark Water, Suicide Club (não tão terror, mais suspense), etc.. Fiquei impressionada, era terrivelmente divertido, apesar de reunir elementos que eu já tinha visto antes. O que demora é se acostumar com esses elementos e não achar que tudo é uma cópia, que tudo é repetição, porque não é (John Ford copiou Griffith, Sergio Leone copiou John Ford, Tarantino copiou Sergio Leone e todos eles são extremamente diferentes). Além disso, são coisas japonesas que simplesmente precisam ser entendidas. Ninguém que não entenda um pouco de coisas japonesas pode gostar de Ichi - The Killer, ou One Missed Call, que é muito mais suave.
Em One Missed Call, que já foi resumido como "ringu com celular", há uma cena em que a garota que foi amaldiçoada por um espiríto através do celular (isso é tão japonês) tem todos os ossos do corpo quebrados e eu achei a coisa mais legal do mundo, a forma como a cena foi feita e como a torção do corpo foi tão explícita dentro da suavidade do filme.
Ichi - The Killer, filme de Yakuza, é basicamente a cena dos ossos sendo quebrados repetida inúmeras vezes, por assim dizer, só a forma que a tortura é feita (óleo quente, facas, etc) que muda. Pra quem não gosta de violência, é terrível. Eu me diverti, apesar de colocar a mão nas sobrancelhas pra agilizar o acesso aos olhos, caso fosse necessário.
Algumas coisas são exageradas, como a forma que o título do filme brota de um plano extremamente detalhado de um sêmen, ugh, tão Amarelo Manga isso, mas aos poucos, a violência (e o sexo) faz sentido. Violência e sexo são comuns para japoneses, não que matem e estuprem as pessoas regularmente, mas eles estão acostumados a produzir coisas com esse tipo de material, qualquer soft hentai tem alguma ceninha de estupro, e, quando você entra nesse estado de mangá, faz sentido que o personagem passe a mão no próprio pinto - que não mostraram, ainda bem, porque seria demais - que, no caso, seria uma garota ensanguentada e deformada de inchaço ocasionados por socos e chutes. Você se acostuma. Mas é japonês avançado.
Japoneses com roupas feitas apartir de video-games, gêmeos com roupas cheias de brinquedinhos de 1,99, um deles, que usa uma tiara com orelhinhas peludas, sádicos loiros efeminados (como em Suicide Club), um personagem chamado Ichi. Tããão japonês.
É uma síntese, novamente, dessa vez, de filmes de Yakuza e cultura japonesa, em geral. Quando um membro de alguma gangue faz alguma besteira, é comum eles mesmos cortarem o próprio dedo como forma de pedir desculpas. No filme, quando um personagem precisa se redimir e dizem "isso não é coisa que um ou dois dedos vão servir" e então ele corta a língua, em detalhe, e atende o celular logo em seguida, com a fala um pouco prejudicada, whoa.
Apesar de ser muito mais agressivo e explícito, me lembrou de Brother e Old Boy, que, se comparados, não tem absolutamente nada a ver. Ao mesmo tempo que traz uma série de elementos exteriores, é tão pessoal. One Missed Call e Ichi - The Killer são tão diferentes quanto Brother e Old Boy, mas lá estão as pessoas que não querem ficar sozinhas e seguem as outras, apesar delas não pedirem pra serem acompanhadas e, bem, as pessoas com todos os ossos quebrados do corpo e uma estranha relação com olhos-mágicos e coisinhas de ferro bem fininhas e afiadas.
A primeira metade do filme é feita, basicamente, para chocar. A segunda metade se torna muito mais interessante, mas, claro, qualquer pessoa que não goste de violência, como meu namorado, já haveria desligado há muito tempo, eu acho que é coisa pra tentar resistir, sinceramente, porque o roteiro é bom, as falas são boas, os personagens são bons. O filme é longo, mas é complexo e bem divido, não senti em nenhum momento que o filme tinha passado tempo demais com um personagem ou outro, ao contrário, senti pena quando morriam, não por simplesmente morrerem, mas por não terem passado o tempo suficiente comigo.
Uma cena em que um membro da gangue paga um macarrão ao Ichi é espetacular e tudo parece muito japonês, a voz de um, a expressão de terror de outro, a forma como uma japonesa misturava inglês e japonês (como a menina que diz "boyfurendo" em Tokyo Drifter, eu sorrio), como as crianças passam por um enforcado sem dar muita atenção, como um garçom é incentivado a se matar porque errou o pedido, tão, tão, que é uma lição de cultura japonesa, mas é coisa pra se ver muito adiante, se você é japonês-ignorante, não comece com isso.
Mas tá, cortar os mamilos de uma mulher é um exagero, mas continua comigo, continua comigo.