Quem apóia cinema gratuito não gosta de cinema
Era pra ser um registro sobre minha tentativa de ver Rubber´s Lover, da mostra de cinema transgressor japonês que está já na última semana no Cine Olido, localizado na parte mais terrível da cidade, mas além do filme ser bastante ruim, não consegui ficar na sala de projeção até o final por causa da sala, não só da ruindade do filme.
O perigo de se ver mostras gratuitas no centro da cidade, de tarde, é, pelo menos, dividir a sala com um bando de velhinhos fedorentos que trazem pipoca num saquinho de supermercado, quando não trazem farofa mesmo. Vi um filme noir, uma vez, nem me lembro qual o nome, em que o maldito velhinho bebia do gargalo duma coca-cola dois litros envolvida em saquinho plástico, além de pigarrear vez ou outra. Isso aconteceu pagando uns 2 ou 4 reais, coisa leve.
Nessa sessão em questão, a do Rubber´s Lover, pelo menos quatro pessoas entraram com saquinhos plásticos, sentaram, trocaram de saquinhos e saíram. Eu pensava que eram malditos velhinhos com jujubas em saquinhos, mas meu namorado confirmou que era tráfico de drogas mesmo.
Rubber´s Lover é muito ruim, é difícil de não conseguir prestar atenção, tem uma ou outra imagem legal mas são todas extendidas por quatro ou cinco excessivos minutos, além de exagerar no som, que incomoda bastante; a garota se aterroriza e ela não grita por três segundos ou qualquer tempo normal de grito que seja, ela grita por malditos cinco minutos e alto e com trilha. Mas isso não importa agora.
O barulho na sala e o movimento é demais. E o pior: Eu ouço alguém gemendo. Não são velhinhos ou traficantes, eu ouço alguém gemendo, sexualmente, e sem nenhuma intenção de disfarçar.
Dar uma volta no quarteirão do Cine Olido é o bastante pra visualizar o inferno, literalmente - eu frequentemente me irrito com pessoas que dizem "literalmente" quando a situação é simplesmente impossível de ser "literal", mas, sério, era o inferno, literalmente. E agora, nessa região da cidade, havia não só aposentados com efisemas pulmonares, traficantes, drogados, bem como gente fazendo sexo.
Cinemas gratuitos não são tomados de crianças carentes de cultura, são tomados por tudo, menos gente interessada por cinema - sem contar comigo e duas ou três pessoas com camisetas de filmes que tentavam tão bravamente prestar atenção na porcaria do Rubber´s Lover.
Uma vez, num farol, vi um cara assaltar a moça da minha frente e fiquei com vontade de ter uma daquelas máquinas que dão choque através de dois fios, logo, podendo ser disparados à distância, e dar uns chutes na barriga do maldito (provavelmente, o cara me processaria por agressão e todo o pessoal de direitos humanos ficaria do lado do bandido, mas enfim, eu teria me divertido). Naquela maldita sala, ouvindo os gemidos e as pessoas entrando e saindo com saquinhos plásticos, fiquei com vontade de ligar pra polícia, mandar prender essas pessoas - eu não faria tudo com minhas próprias mãos, porque eles são sujos - mas claro que não o fiz, saí da sala sem terminar de ver o filme e desisti do resto da mostra, com sinais de depressão - será que quando eu for ver a Mona Lisa vai ter um cara se masturbando em cima dela? Na formatura dos meus filhos? Tudo que for legal e barato que acontecer vai ter um cara se masturbando em cima das pessoas e estragando tudo? No meu casamento, em cima da Tia Rosa?
Nós chegamos bem em cima da hora pra ver o filme, meu namorado foi até o banheiro e eu fui pegar lugares. Quando ele voltou e parou ao lado do cara sentado com as pernas impedindo a entrada de qualquer pessoa logo no começo da fileira, parecia que o cara nem sabia que estava em um cinema e que as pessoas querem ver um filme, que vão passar um filme. Ele foi um dos caras que fez trocas (extremamente barulhentas) e saiu pouco depois.
Não digo que cinemas capitalistas bonzinhos e limpinhos sejam uma maravilha, que ninguém conversa ou não escolhe os tipos de bombons que fazem mais barulho pra abrir (e o fazem de-va-gar) até porque os filmes que eles exibem são de uma outra amplitude de ruindade, não é como Rubber´s Lover, é como Shall We Dance com a J-Lo, mas pelo menos eu não fico com nojo das poltronas e não fico com medo de uma batida ou confronto de gangues a qualquer momento, sem falar em orgias envolvendo saquinhos plásticos.
Nos Cinemarks, as pessoas jogam vôlei durante o filme, mas eles são limpos, pelo menos.
O ideal seria ver esses filmes obscuros e artísticos por, sei lá, 50 reais. Sem meia. 50 reais. Eu não teria dinheiro, mas não seria uma maravilha? Só pessoas REALMENTE interessadas em cinema no cinema?
Já ouvi um garoto indie dizendo que apóia o cinema gratuito, que ele consegue prestar atenção no filme não importa o que esteja acontecendo na sala. Eu respondi dizendo que EU não consigo e ei, garoto indie, você não brigaria pelo MEU direito de conseguir assistir o maldito filme? Pelo direito de todo mundo?
Que espécie de namorado seria alguém que não se importa com as condições de um lugar desde que ele esteja bem? Que não liga pro ar-condicionado e deixa a namorada morrer de pneumonia?
Ah, mas quem não gosta de ver um japonês gritando durante duas horas e meia?
por Alexandre — June 16, 2006 @ 8:12 pm
Olá. Linque no SU do ASS. Muito bom e bem escrito. Em frente, por favor.
por tiago a — June 18, 2006 @ 10:47 pm