Repulsion

É difícil dizer de uma forma que não fique brega, mas a coisa que mais me surpreende em Roman Polanski é como ele pode ser feminino, como ele consegue descrever sentimentos que, acredito, são primordialmente coisa de mulher. Não é muito masculino ter nojo das coisas relacionadas ao corpo, assim como não são pais que sonham com bebês deformados.

Repulsion é sobre solidão também. Catherine Deneuve sempre está ao lado de cadeiras vazias, espaços vazios, que ela encontra sujeiras e limpa freneticamente. Talvez solidão faça com que você sinta nojo das pessoas - quando foi que ela desistiu? Ou desistiram dela? O único momento em que ela parece se divertir é quando conversa com uma colega sobre um filme do Charlie Chaplin - sensação estranha, elas se tocavam de uma forma que eu tinha certeza que elas se beijariam - mas então, ela encontra a cabeça do coelho podre (que se parece com um cachorro) em sua bolsa.

Eu adoro a forma como ela olha com nojo para a cliente velha que faz tratamento de pele. Não responder quando se é chamada seria uma forma de não existir, de ser um fantasma, de nunca ter de ficar daquele jeito ou ter de se relacionar com outras pessoas, sejam as que apenas olham e comentam nas ruas ou os que tentam beijar - que nojo beijar alguém quando a imagem que se tem na cabeça é a de uma velha que, invariavelmente, estaria envolvida no futuro de pelo menos uma das pessoas que beija. 

Um furo na parede, bater cabeças, batatas podres. Eu adoro reconhecer esses elementos que se repetem em outros filmes, é como notar tiques nervosos em namorados - estar tanto tempo com uma pessoa que você vê essas coisas que ninguém mais vê, se sentir especial por isso, por ter passado esse tempo juntos.

Outra coisa que gosto é que com exceção da foto de infância, extremamente assustadora (morro de medo de fotos de famílias de outras pessoas, não se sabe quem está morto, quem está vivo, quem era bom, quem era mau) não existem flashbacks pra explicar porque ela é assim - uma menininha loira que viu os pais na cama, que foi abusada ou algo. Haveriam grandes diferenças se o filme fosse feito pra audiências de hoje. Primeiro que você não pode fazer com que a personagem delire sem que fique óbvio para a platéia que é um delírio. Catherine Deneuve viria a parede rachar, esfregaria os olhos e lá estaria a parede intacta - pra ficar claro e óbvio e chato. Usar uma câmera muito doida pra sonhos e delírios e tal, pra não deixar ninguém confuso… Fazer filmes com elementos bizarros hoje em dia é como ser professora de jardim de infância, tem de deixar claro pra não comer a cola.

Gosto que a Catherine Deneuve entra em casa com a bolsa aberta - porque ela precisa abrir a bolsa pra pegar a chave e ninguém abre a porta e fecha a bolsa antes de entrar, como fazem em todos filmes em que alguém chega em casa. São detalhes bobos mas que mostram dedicação, se há dedicação, há amor, há propósito e vida inteligente, são detalhes que o cara que escreveu Da Vinci Code não se importou em relevar, como albinos cegos em perseguições de carro e a falta de vontade (vontade!) de olhar um mapa de Paris e descrever as ruas adequadamente. 

Estou me desviando, mas vi um trecho uma vez do set de filmagem de Rosemary´s Baby em um documentário sobre o produtor Robert Evans, The Kid Stays ins The Picture. Um nano-segundo em que Roman Polanski ajeitava o braço de Mia Farrow sobre a mesa, ela tirava do lugar no mesmo instante e ele voltava e colocava o braço uns dois centímetros pra lá, no lugar que deveria ficar. Deve ser horrível trabalhar com alguém assim, mas como não amar o resultado ou, pelo menos, o esforço, esse esforço que ninguém mais tem, essa doença?

Amo, amo, amo, amo. 

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