Estou pulando uma longa lista de filmes para falar de Lady in the Water.
Quero começar pela experiência que tive no cinema com este filme.
Pouco antes de entrar na sala de projeção, eu estava fazendo hora, bebendo Fanta e me divertindo com M.L., quando vi uma garota com um estranho adereço de cabeça passar.
Meio comum ver pessoas esquisitas no Bristol, mas era uma coisa muito, muito esquisita na cabeça da menina e eu não podia entender como aquilo estava preso - se era uma tiara, se eram fivelas, um chapéu, não, nada disso.
Eram flores azuis grudadas, de alguma forma, do lado esquerdo de sua cabeça e era assustador.
Algumas pessoas se vestem de modo diferente e eu realmente não me importo e até apóio, faz tudo ficar muito mais interessante quando a vida real pode ser tão chata. Mas aquilo. Aquilo era totalmente sem sentido. Não era um diferente-bom. Era feio e alarmante - aquela garota era tão sem contato com o mundo, tão sem senso de humor, que ela não riu quando se olhou no espelho?
Imagine alguém vestido de cogumelo e com uma seriedade plena. Como seria essa pessoa?
Enfim, eu entrei na sala, uns trinta lugares ocupados em uma sala pra cem (era uma sessão da tarde), subi as escadas até onde achei que a distância entra a tela e eu ficaria adequada e, acidentalmente, me sentei atrás da garota com o adereço na cabeça.
Talvez eu tenha visto ela ali, um mistério, e inconscientemente, fui atraída a me sentar perto dela, perto daquela irresistível Esfinge do mau-gosto prestes a me devorar. Mas juro, enquanto consciente da minha consciência, que eu só reparei que ela estava lá depois de ter me sentado, de ter acomodado duas sacolas com livros e mangás, minha bolsa e tudo.
Ela comia um hambuguer. Quem come um hamburguer em um cinema? E sem a menor vergonha também, ou pressa. Ela tinha orgulho. Vejam, estou comendo um hambuguer no cinema enquanto uso um estranho adereço na minha cabeça. Que intrigante.
Ok. O filme.
Ah, não. Os traillers. Devo ter rido de alguns, não me lembro. E, então:
Snakes on a Plane!
Oooh, que prazer!
Então, tentar explicar a coolness de Snakes on a Plane.
Quando lançaram Scream, muitas pessoas não perceberam que era irônico, que não era um filme de terror de verdade - não estou dizendo que eu gosto, mas era irônico, eles queriam chamar o filme de Scary Movie, originalmente, para falar, seja bem ou mal, mas ironica e sarcasticamente sobre filmes de terror (sim, era metalingüístico, era inteligente).
Snakes on a Plane é um filme de ação irônico. Você pode imaginar isso? Snakes. On a Plane? Snakes on a Plane? Com Samuel L. Jackson? É como nomear qualquer coisa de "Paris Hilton on Fire".
Eu entendo que, na verdade, os críticos não estão adorando o filme, apesar de terem elogiado o conceito, mas eu sempre vou amar um filme chamando Snakes on a Plane. Snakes on a Plane!
E então, o filme.
Começa com uns desenhos tosquinhos, pseudo-africanos, um texto bem imbecil, com os bonequinhos deixando de ouvir as criaturas das águas porque estão carregando casinhas acima das cabeças e se mudando para longe - viu? tudo acabou com a propriedade privada, e eu olho para a garota com aquilo na cabeça, sentada no escuro.
Mesmo assim, eu estou tentando. Você sabe, por causa de Sixth Sense. E, sei lá, uma cena em Unbreakable.
The Village foi como a primeira traição. Todo namoro passa por uma traição, mas resolvem tentar mesmo assim, você sabe, pelo amor. Lady in the Water é sobre como eu rompi com Shyamalan. Como todo mundo deveria.
Eu preciso falar sobre os desenhos pseudo-africanos agora porque, no filme, a lenda da garota do lago (que não é um lago, é uma piscina) é chinesa e tem criaturas chamadas scrunts e narfs.
Sabe, eu nem me importei com os alienígenos suscetíveis a H2O invadindo um planeta feito de 3/4 de água, juro por Deus, mas isso é uma ofensa pior do que chinesas interpretando gueixas, muito pior. É um erro nem mesmo de roteiro, é um erro de sinapse, antes de qualquer coisa ter se materializado, ter tido permissão para tal - e como ele deixou chegar tão longe?
Bom, Night sofreu problemas com a Disney, todos nós sabemos, mas ele não tem bom senso? Digo, como uma pessoa? A garota do hamburguer, com aquilo na cabeça, lendas africanas/chinesas com scrunts e narfs e Eatlons, Atlons, Otlons, sei lá… O bom senso morreu? Mistérios, mistérios.
Paul Giamatti. Eu gosto, mais ou menos, ele sempre faz personagens caricaturais que acabam, felizmente, se parecendo com pessoas reais, mas eu senti vergonha por ele. Vergonha por ele estar nesse filme, ter de gaguejar e fazer coisas tão ridículas que jamais seriam naturais, senti vergonha por ele ter se esforçado para fazer um filme tão, tão ruim que faz The Village ser Casablanca, por isso.
Se eu precisasse apontar exatamente qual o problema com M. Night Shyamalan eu diria que foi ambição. Sixth Sense era um filme mais ou menos pequeno que deu muito certo e então tudo começou a ganhar proporções imensas e ele quis ser imenso - ele quis refazer Lord of the Rings e Harry Potter, cheio de criaturas mitológicas e regras (ooh, o guardião poderá enfrentar o scrunt que está atrás da Madame Narf que espera pela águia Eatlon, e essa coisa toda é controlada pelos tooki-tooki, que só aparecem no final do filme, não sei porquê) mas no próprio quintal, para mostrar, não sei, que coisas fantásticas podem acontecer com pessoas completamente normais.
As pessoas não são normais. O conjunto de apartamentos em que toda história acontece, que é como um prédio da ONU, você tem TODAS as minorias representadas, é cheio de pessoas que deveriam te conquistar (ooh, aquela chinesa é tão debochada) mas é impossível sentir simpatia. A coruja do Harry Potter tem muito mais carisma.
Harry Potter pode ou não pode ser um lixo literário, eu odiei o primeiro filme, eu dormi, não vi o segundo, e gostei de Azhsfskaban, ou seja lá qual for o nome. Nesse aí, com o Gary Oldman, existem umas criaturas assustadoras que fazem o Harry Potter desmaiar, bem Freudian/Jung - dá medo, de verdade. Olha, eu estou te dizendo que Harry Potter dá medo.
Lady in the Water não dá medo. Dá susto e nem muito bem. O som sobe de repente, vocês sabem como é, mas nenhum medo.
Em dado momento do filme, eu estava feliz porque eu tinha chiclete. Ooh, estou tão feliz que eu tenho chiclete e eu posso mascar, mascar, mascar e fazer bolas enquanto olho pra tiara/fivela/chapéu/alien da garota da frente. Eu não sentia nada, nenhuma simpatia por nenhum personagem, eu não estava me divertindo, eu não estava assustada, eu não estava nada.
Minto. Me joguei na cadeira diversas vezes como se o desprezo tivesse me dado um peteleco no nariz.
Oh, então o Shyamalan é o escritor incompreendido que vai salvar a humanidade? Oh, então você tem um crítico que não sabe do que fala e é, em suma, detestável? É possível ser mais indulgente? É possível não ter vergonha disso?
Olha, todos nós nos achamos a última batatinha e, provavelmente, todos nós escrevemos historinhas quando criança em que pessoas muito parecidas com nós mesmos eram super-heróis, super-escritores, super-pintores, super-fotógrafos, super-cineastas, super-cozinheiros, super-jardineiros, super-tudo, já que, secretamente, somos mesmo isso tudo - mas você publicaria isso e a sério? Você teria essa presunção e completa falta de vergonha na cara? Aparentemente, algumas pessoas sim.
Enfim.
Pessoas tentando ser adoráveis.
Pessoa má: O crítico, é claro.
Twist.
Twist.
Twist.
Scrunt.
Shyamalan.
Shyamalan.
Shyamalan.
Shyamalan.
Shyamalan.
Morte da pessoa má.
Celebração das boas pessoas.
Grande cena de rendeção.
Narfs, scrunts, orcs, hobbits, oompa-loompas e tal.
Fim.
Que coisinha horrível. Abracei minhas sacolas, acordei M.L. e me levantei o mais rápido possível. E, então, eu ouço sons, além da música dos créditos. Eu ouço um nariz. Sim, um nariz. Fungando com prazer e orgulho.
Bom, se você lê bastante, sabe qual o final da minha história (e as histórias são escritas dessa forma porque as coisas acontecem assim). Sim. Era a menina da coisa na cabeça. Ela estava chorando. Chorando.
Como isso é possível?
Eu acredito que foi assim: Ela leu a sinopse do filme no jornal jogado no chão enquanto plantava bananeira. Então, voltou a ficar em posição "normal", colocou seu melhor adereço de cabeça e disse "vou ter uma catarse hoje" , "eu vou chorar no cinema hoje e não só vou ter uma grande experiência pessoal, como todos vão olhar pra mim e pensar que pessoa artística, sensível e única eu sou!", olhando no espelho agora, "graças a essa belezura aqui" e tocando, de leve, o objeto que representa o fim da própria humanidade.
Como isso é realmente possível, como realmente aconteceu, o que se passa dentro da cabeça da menina, e mesmo por fora, com quem dividi uma sessão de cinema inesquecível, bem, é uma pergunta que eu deixo para a posteridade, para as muitas gerações por vir, que poderão, assim espero, respondê-la com muito mais conhecimento do que possuímos agora.