Lavoura Arcaica
Eu nunca consegui estalar meu pulso -agora eu consigo e faço o tempo todo, olha - como nos filmes que alguém ameaça uma outra pessoa, assim, com o pulso perto do rosto, ou com o pulso mostrado em detalhe ao lado da coxa (geralmente, direita) e cruechg.
Eu vi dois minutos de Lavoura Arcaica, que valem por duas horas de tortura-Ichi-the-killer-style, estalei o pulso (yay!) e saí da sala dizendo "meu Deus, meu Deus, meu Deus…"
Acho que o propósito da coisa toda era mostrar lirismo, poeticidade.
Poesia é o meio mais comum para escritores ruins se manifestarem - ande na Avenida Paulista, por exemplo. Quantos poetas-de-boina vão pará-lo e te mostrar poesias sobre uma garota chamada Vanda, Vanda vadia, vem volúpia, vem/Anda, manda, dança/Vanda, dança, vai, vai/Vanda, não volta nunca mais/Vanda viu a uva do vovô e voou, voou/Vanda vai, vai, vai ou os dias da minha juventude corrompida pelos truques do destino-menino, menino-porco, menino-lindo, tecendo traquinagens tolas com os fios do universo, os fios dos seus cabelos dourados, Vanda, vai, vai, Vanda e não volta nunca mais, não…
Na verdade, recentemente, leram pra mim algo de Vinícius de Moraes que rimava mar e luar e era uma merda. Eu não me lembrava que era tão ruim.
Todo professor de português faz uma lavagem cerebral em todas as crianças durante a quarta série, mais ou menos, levando letras de música de Chico Buarque e coisas assim, para atiçar a poesia dentro de nós, fazê-la rugir, se mostrar, dar a cara para bater... E a criança cresce, com sua poesia interna atiçada, e acha Lavoura Arcaica sensacional, emocionate e tão poético - ‘mas o que é "lascívia?"’ (sim, eu ouvi isso, quando voltei à sala).
É afetado e falso. Uma tortura. Lirismo brasileiro acompanhado de atores brasileiros são uma tortura. Porque atores falam "lascívia" pronunciando to-das as sí-la-bas e com uma falsidade tão grande que eu duvido que eles saibam exatamente o que é "lascívia", ou mesmo "você", vo-cê… É outro idioma, pronuncionado por alienígenas, como atores tentando falar português em filmes supostamente passados no Brasil, oprigado, por-favorrr, señor (na verdade, eu os prefiro aos verdadeiros).
Qualquer coisa com um rastro de emoção é apreciado no Brasil. Somos todos um bando de emos deprimidos.
Sim, uma das coisas que mais me dão nos nervos é como em filme e novela quase ninguém fala de um jeito normal. Tudo de um jeito afetado. Sei lá onde começou isso - mas é insuportável. E os filmes ainda são ruins, então é duplamente insuportável.
por Jules — September 26, 2006 @ 1:22 pm