The Black Dahlia
Eu tive um professor horrível que dizia que a linguagem audivisual é essencialmente referencial - é, e também não é. Basta fazer um filme que se pareça com algo que teve sucesso e pronto? Se fosse tão fácil, por que todo mundo não faz? Por que meu professor não fez? Por que ele não copiou John Woo?
As pessoas, e muitos profissionais do meio, acham que cinema é muito fácil. Seria pura aleatoriedade quem faz e quem não faz sucesso? Claro, existem casos de injustiças que ninguém conhece e justiças demasiadas (especialmente entre brasileiros). Mas eu não acho que fosse o caso do meu professor - ele só não tinha sensibilidade mesmo.
Senti inúmeros deja vus enquanto assistia The Black Dahlia e fiquei furiosa comigo mesma por esquecer a lista de filmes que eu tinha feito mentalmente. Também, por medo de errar, já que não tive o melhor ensino, vou evitar mencionar muitos títulos, mas, com certeza, me lembrei de um filme do Fritz Lang, provavelmente com Gloria Grahame, ou Glenn Ford, ou ambos, que já me perdi da história completa e do nome.
A questão não é muito dizer o que é de cada filme em The Black Dahlia, mas que tudo é um clichê.
Scarlett Johansson força uma voz mais suave, menos rouca e mais fina - a orientação é bem-vinda e bem intencionada, o resultado é que eu sinto falta da Scarlett rouca e tímida e com um tom mais escuro de cabelo de Lost in Translation. Não haveria como evitar que Scarlett se tornasse o que é hoje - a loira sexy - mas Charlotte foi quem começou tudo e sempre que a vejo em outros filmes, procuro por rastros de timidez e sarcasmo, que não encontro mais. É triste. Sobrancelhas perfeitas. Mas é triste.
Josh Hartnett foi contratado, provavelmente, por causa de Sin City - seu voz-over é poderoso - e segue a mesma linha de homem/garoto atraente e carinhoso mas que se prova mortal. Claro, aqui ele é o elemento puro, ele tem caráter, que ninguém mais tem, mas isso vai mudar. Eu acho que ele é um ator muito bom. Pelo menos, tudo que vi dele até agora, tinha qualidades. Ele não tem o físico perfeito, muito novo e muito magro para se passar por um boxeador, mas eu acho que ele pode ser ótimo quando ficar mais velho, com rugas estrategicamente colocadas nos cantos dos olhos e vincos nas bochechas.
Hilary Swank é um mistério pra mim. Será que ela está bonita? Será que ela é bonita? Em algumas frações de segundos, ele fica magnífica e então, o rosto dela se contorce e fica horrível. Um mistério. Uma das características mais marcantes do cinema noir (pelo menos, pra mim) é que nem todas as suas mulheres eram exatamente bonitas. Eram atraentes, mas não bonitas. Gloria Grahame é bastante esquisita, se você for analisá-la. A escolha de Hilary Swank para seu papel é Ok pra mim, até mesmo adequada.
Eu não poderia, jamais, contar a sinopse do filme. É importante assistir sem se importar muito. A verdade é que, lá pelo final, estavam mencionando alguém chamado Charlie e eu estava completamente perdida - Quem é Charlie? Ah, é ele, aquele lá.
Assim que os casos começam a aparecer para os dois policiais/boxeadores, Mr. Fire e Mr. Ice (muito legal) eu vi que era necessário me desligar do que estava acontecendo e aproveitar as imagens. Brian De Palma parece soltar nomes apenas porque eles soam legais. Nash… E, por alguns segundos, imaginei uma entrevista muito franca, "Eu adoro o nome Nash, uso sempre que posso, pena que é tão datado e noir".
É tudo muito bonito, nada exagerado, nada estamos-reconstruindo-o-noir-behold!, mas muito bonito e visualmente acessível - não é excessivamente estilizado como Sin City (que gosto também, mas como dois irmãos muito diferentes vindos do mesmos pais).
Encontrei com amigas na saída do filme. Elas estavam na fila da entrada para The Black Dahlia. Eu disse brincando que contaria o final a elas. Percebi agora que não posso contar o final, porque não sei, de fato, o que aconteceu. É vergonhoso. Mas eu não entendi a trama. Assisti ao filme com três pessoas muito mais inteligentes que eu, e eles também não entenderam. Há um certo excesso em reviravoltas (como com Femme Fatale) mas filmes noir são, às vezes, longos assim.
Sinto que estou desculpando um série de coisas no filme porque "o noir é assim", mas é questão é que é assim mesmo. Com triângulos amorosos, rivalidade entre loira/morena, policiais corruptos e tudo mais… Até as formas com que Brian De Palma encerra sequências (com a próxima cena "cobrindo" a anterior, da esquerda para a direita) e usa fusões do rosto do ator com o que há em sua mente são noir. Como eu posso não gostar de algo tão noir em 2006?
Existem problemas de adaptação. É, simplesmente, muita coisa, muitas idas e vindas. Mas visualmente é perfeito. Escadarias, novamente, e sombras, especialmente sombras, sendo importantes na narrativa, como sempre aconteceu no, advinhe, noir.
Em dado momento, Josh Hartnett discute com Hilary Swank. Ele sentado, ela de pé. A câmera se concentra no nível de altura de Josh Hartnett, mas sobe para Hilary Swank. Isso é estranho porque, geralmente, o campo e o contra-campo de uma cena estão sempre no mesmo eixo, na mesma altura. Ele subiu a câmera para mostrar o lustre, para mostrar a luz descendo com suas grandes arestas e poder mostrar os cantos superiores cobertos de, o quê? SOMBRA! N-O-I-R!
O som é sensacional. Você pode sentir os socos e os tiros parecem danificar a audição. Nunca estive na presença de um tiroteio, mas tenho impressão de que todo o corpo demora alguns segundos para lidar com todo aquele barulho e isso acontece na sala de cinema.
Ótima experiência, pena que não sei lhe contar a história - não gozem de mim, quem entendeu.
“Sinto que estou desculpando um série de coisas no filme porque ‘o noir é assim’”. É exatamente a sensação que tive ao final. Não que eu não tenha gostado do filme, mas se tivesse usado sua estratégia “esquecer a trama e apreciar o visual” teria ficado mais satisfeito. O roteiro é demasiado macarrônico, e para juntar as pontas é necessário um trabalho de pós-processamento - o que é muito chato.
A Hilary Swank é muito talentosa e feia (disso não tenho dúvida).
A mudança na voz e trejeitos da Scarlett Johansson pode ter tido boa intenção. Mas como destas o inferno está cheio, dona Kay não me convenceu; exceto, é claro, se nos anos 40-50 as mulheres “comuns” eram realmente afetadinhas e choravam e faziam caras e bocas como personagens de cinema.
Mas meu mistério mesmo é o Briam de Palma. Não sei o que penso dele. Até gosto, mas poucas vezes fico plenamente satisfeito.
por Luciano Chaves — October 15, 2006 @ 9:53 am
A questão não é ser como uma mulher dos anos 40. Este é um filme estilizado, como todo filme noir é. Não deu certo, mas é culpa da Scarlett Johansson, não do diretor ou do roteiro.
Com relação a Brian De Palma, ele cometeu alguns erros, mas Os Intocáveis é, do começo ao fim, uma lição de cinema.
por ladysnowblood — October 15, 2006 @ 10:33 am
O filme é bom sim.
Scarlett não servia para o papel. É um pouco de culpa do diretor sim, ou, pelo menos, dos produtores.
Sobre o De Palma: ele não cometeu alguns erros, não sejam assim tão gentis. Ele fez Missão Marte. Repetindo: Missão Marte.
por ulisses — October 16, 2006 @ 2:43 pm
Sim, a culpa é da Scarlett, mas compartilhada com Briam de Palma, como disse o Ulisses. Concordo mais ainda sobre “Mission to Mars”; e ainda contra ele temos “Femme Fatale”, que para começar tem o Antonio Banderas e para terminar tem personagens mal caracterizados e um roteiro vale-tudo, e o fraquinho “Snake Eyes”. Ou seja, nos últimos 10 anos temos cinco filmes dele, dos quais, IMHO, podemos salvar dois: “The Black Dahlia” e “Mission: Impossible”. Média ruim.
Ah, e concordo sobre “Os Intocáveis”. É das poucas vezes em que fiquei satisfeito com Briam de Palma. Muito muito satisfeito, inclusive.
por Luciano Chaves — October 16, 2006 @ 9:51 pm
Primeiro, é Brian com “n”, não “m”.
Segundo, a crítica que fiz ao Black Dahlia - a questão noir - se aplica totalmente ao Femme Fatale e é ótimo.
Nicholas Cage é quem estraga Snake Eyes.
Mission to Mars tem um conteúdo péssimo, mas é bem filmado até chegar naquele fim horrível.
Depois de Carrie e Untouchables, você realmente não precisa mais fazer muita coisa pra provar que é um bom cineasta.
por ladysnowblood — October 16, 2006 @ 10:37 pm
“Depois de Carrie e Untouchables, você realmente não precisa mais fazer muita coisa pra provar que é um bom cineasta.” Em nenhum momento disse que ele é um cineasta ruim, o que disse é que últimamente ele mais erra que acerta - e como disse: IMHO.
Tenebroso, indesculpável o meu repetitivo Brian com “m” - e não posso nem dar a desculpa do “m” e “n” serem vizinhos. Na sua posição, de quem aparentemente gosta muito do De Palma, eu também ficaria levemente irritado com alguém que critica e não sabe nem escrever o nome do alvo (compreensível, mas talvez um pouco injusto). Já vi você escrever sobre brigar com seus amigos por causa do Tarantino, então levo meu puxão de orelha de leitor-comentarista com uma leve careta de dor e vou ali para o cantinho amuar um pouquinho, depois volto.
Não sei se meus comentários eventualmente podem parecer, sei lá, impolidamente incisivos ou algo do gênero. Se for o caso, favor relevar - nunca é a intenção, pois se sempre estou por aqui é por gostar do que leio e não para ressalvar.
por Luciano Chaves — October 17, 2006 @ 2:05 am
Eu me irrito facilmente, ainda mais quando o assunto é cinema e sinto que não estão dão crédito a quem merece (ou quando dão crédito a quem não merece).
O próprio Tarantino é um grande fã de De Palma (as sequências com a tela dividida em duas, tanto em Kill Bill Vol. 1 como em Kill Bill Vol. 2) e eu vejo, e imagino que Tarantino também veria, tudo em vermelho quando ouço, ou leio, alguém falar mal daqueles de quem eu sou fã.
Agradeço o elogio, de verdade. A questão é que eu amo cinema e isso pode gerar um pouco de agressividade na hora de defender certos assuntos.
Mas paz, paz.
por ladysnowblood — October 17, 2006 @ 2:32 am
:)
por Luciano Chaves — October 17, 2006 @ 1:00 pm
Sou viadinho (comentário editado)
por ulisses — October 17, 2006 @ 2:20 pm