Alphaville
Fui ver Alphaville na Cinemateca ontem à noite. Grande aglomeração de óculos e cachos e barbas. Eu sou praticamente a única de cabelo liso, sem óculos e sem barba. Pedi uma coca-cola e uma esfiha de carne no café e me senti meio esquisita, imaginando que me olhariam feio por inúmeras razões comunistas e vegans. De alguma forma, não me sinto à vontade com esse tipo de público assim como não me sinto bem com os adolescentes discutindo se era "facho" ou "feixe de luz" na fila do Borat. Ainda não descobri um público ideal (e, sim, parte de um bom filme é um bom público) mas Alphaville.
No meu círculo de amigos, todos sabemos que Godard é um cretino e somos todos do time Truffaut. Mas tentamos, de vez em quando, assistir alguma coisa de Godard, principalmente se for antigo, e também para poder falar mal.
A sala de exibição está cheia. Uma faxineira traz cadeiras de plásticos para colocar nos corredores. Estive em quase todos os dias na mostra de filmes do Truffaut do ano passado e nunca, nunca, ficou cheio daquele jeito. Uma pena.
Mas tá. O filme começa com essa lanterna piscando - imagino Godard querendo criar uma experiência no cinema e dou um sorrisinho esnobe, mas ok. Cortes experimentais que me deixam insensível. Pretensa coolness de um homem cujo rosto é iluminado ao acender um cigarro na boca (entendo porque os criadores de Cowboy Bebob gostam de Godard) e é basicamente isso que há de bom em Godard e foi eliminado completamente com o passar dos anos: A tentativa de fazer algo legal com agentes secretos e detetives e armas e casacos e garotas. Penso que se eu pudesse viver em qualquer universo, eu escolheria essa coisa francesa policial thriller dos anos 60 - mas por motivos estéticos, sem política alguma ou qualquer outro conteúdo muito sério.
As pessoas dão risada em momentos que não pedem por risadas (geralmente, quando as manobras nas cenas de luta não dão muito certo, mas eu aprecio o esforço).
Não ligo muito pra Alphaville em si, como ela funciona, o que ela faz com as pessoas, o quão parecida essa sociedade é com a nossa e bla bla. Eu quero cenas de lutas com homens de chapéus e casacos e palitos de dente na boca (faltou palitos de dentes na boca).
Existem cenas bem frenchy em que Anna Karina fica passando as mãos na frente do rosto de Eddie Constantine enquanto eles encaram a câmera com seriedade de comercial de perfume. É bem bobo. Grande parte da aplicação do experimentalismo daquela época, hoje, se resume a isso: comerciais arty de perfumes de Yves Saint Laurent, Jean Paul Gaultier, you name it.
Apesar desses momentos estranhos, gosto de qualquer filme futurista em que as pessoas usam roupas normais, gosto de agentes secretos e da voz de sapo do Alpha 60. No geral, é bonzinho, eu acho.
:>)
por Alexandre — January 22, 2007 @ 11:23 pm
alphaville é legalzinho mesmo. mas se quiser manter a opinião ruim de goddard, não veja “vivre sa vie” (acho que em português é “viver a vida” ou qualquer outro nome meio propaganda de protetor solar), grande filme.
por rodrigo de lemos — January 23, 2007 @ 2:17 pm